
Eu estava lá mais uma vez, no mesmo lugar de todas as sextas a noite. A garçonete da lanchonete já me conhecia e me trazia um café forte acompanhado com um “Boa noite” sem eu pedir algo ou abrir o cardápio. Ela sabia o que me dar, variando com o tempo. Estranho isso, né? Uma desconhecida que mal sabe o seu nome, que arrisca te chamar como “a garota das sextas”, te conhecer melhor do que se dizem amigos. Mas eu já estava acustumada demais para se importar com isso. Parei por um segundo e fiquei observando a cidade. Casais indo e vindo, beijos e carícias sendo trocados e eu desejando só que uma pessoa sentasse do meu lado e conversasse comigo. Admito que estava um estado de carência. Eu era uma pessoa difícil de se encontrar chorando na frente dos outros, principalmente em um lugar como uma lanchonete. Mas me peguei com uma lágrima quase transbordando dos olhos e antes que pudesse cair, passei a mão no rosto. Eu não entendi o porque quis chorar naquela hora. Resolvi me distrair com algo antes que fizessem uma roda em volta de mim perguntando o que havia acontecido. Não queria o tipo de atenção que eu queria naquele momento. Resolvi prestar atenção as pessoas que estavam a minha volta. Colegas conversando, bêbados solitários e mais casais apaixonados. Prestei atenção no rapaz que estava apoiado no balcão bebendo sozinho. Parecia cansado de algo. Quis por um minuto que ele virasse de costas e que eu pudesse ver o rosto dele. Achei que serviria de conforto saber que mais alguém além da “garota das sextas” ter recaídas naquele lugar. Eu não sou a única que tem problemas e quando acho que os meus são os piores, tem pessoas que preferem não viver o amanhã. Eu sei disso. Mas não sou o tipo de pessoa que consegue ser otimista em tudo. Eu perdida nos meus pensamentos, estava com o olho fixado no pescoço do rapaz. Ele se virou. Nossos olhares se encontraram e eu virei para a rua o mais rápido que consegui. Corei. Acho que ele não pode deixar de notar. Uma, duas, três vezes e ainda continuava encontrando com o olhar dele. Quando decidi desencanar dessa paranóia foi tarde demais. Ele já se dirigia a minha mesa.
— Não acha que está uma noite muito bonita pra ser disperdiçada ?
— Não estou disperdiçando.
— Mesmo não te conhecendo, não acho que entrar em uma lanchonete e esperar a garçonete te expulsar para fechar o lugar seja um dos seus programas favoritos.
Eu tentei evitar, mas meu sorriso foi saindo aos poucos. Dei risada, mas evitei olhar no rosto dele.
— Luanna.
— Thiago, prazer.
Dei de ombros, não disse mais nada.
— O que te aflinge, pequena?
Olhei para o rosto dele, prestando atenção em cada traço do rosto dele. Fiquei meio assustada na clareza e suavidade que ele me chamou de pequena. Não me importei em esconder a expressão. Fiquei perdida no olhar dele. Quando me toquei ele estava me olhando, aguardando uma resposta.
— Se não quiser falar, tudo bem. Sei que é difícil conversar com um desconhecido mas não acho outro assunto. Desculpe.
— Não. Eu que peço desculpas. - Segurei a xícara de café mais forte e olhei para baixo achando uma maneira de explicar o que estava acontecendo sem alugar o ouvido dele por uma hora.
— O meu problema é a vida. Que me dá as coisas e as tira.
— Isso é sintoma de quem se importa demais.
— Não me importo. É que chega uma hora que me pergunto porque disso tudo. Parece um teste comigo.
Ele me olhava sério, como se estivesse realmente interessado.
— Não espero que entenda. - Eu sorri. - Nem eu mesma entendo ás vezes.
— Bom, até quem se diz não se importar acaba sendo alvo da fraqueza um dia, né? Não dá para fugir.
— Não sou fraca! - retruquei e franzi a testa -
Ele continuava me olhando sorrindo. De um jeito que eu queria socar a cara dele!
— Mas e você, Srº Sei de Tudo? - devolvi - O que houve com o seu coração? Com seus sentimentos?
— Eu perdi ele no decorrer do ensino médio.
Ele disse seguido de uma risada maravilhosamente gostosa de ouvir.
Dei de ombros e não queria que ele percebesse o quanto gostei da cena.
— O amor é a última coisa ousada que sobrou no planeta. E a coisa mais difícil de se obter hoje em dia. Principalmente quando eu estou no meio.
— Concordo com você. Mas o que podemos fazer? É a vida, pequena. Temos que dançar conforme a música.
Ficamos conversando por mais uma hora e percebi que tinha mais coisas em comum com ele do que qualquer outra pessoa que já tinha conhecido. Talvez eu esteja inventando coisas mas por um minuto achei que ele era a pessoa perfeita para iniciar um namoro. Viu o meu estado? Planejando um futuro com um rapaz que fazia nem 24 horas que eu conhecia. Eu realmente precisava mudar este hábito. Esse hábito de criar muitas expectativas em cima dos outros. Porque eu sempre acabava daquele jeito. Num canto da lanchonete, sozinha querendo adivinhar o porque disso tudo acontecendo comigo. Decidi mudar as minhas atitudes. Mudar a imagem que tinha naquele lugar. Ele me deu uma sensação diferente que eu nunca tinha sentido antes. Me pegava sorrindo sozinha olhando para ele. Me fez querer ser melhor, e percebi que preciso lutar para isso. Se eu cair? Levanto. Nada me afetará! Se afetar, sei que tenho alguém do meu lado. E se não estiver, não ligo. Aquela sexta foi marcada no meu coração. (vontadenula) e (tododistorcido)